Porque a iminente vitória de Joe Biden era inesperada

A fotografia acima não parece, mas é de um comício presidencial. Foi capturada na tarde do dia 31/10, na antevéspera da abertura das votações presenciais nos EUA, em Flint, no estado do Michigan – justamente aquele em que Joe virou no último momento, com saltos bastantes estranhos, e que encaminhou a vitória do democrata. Lá no fundo, sobre um palco, estava o favorito das pesquisas e dono da maior torcida do planeta, Joe Biden. E não só ele. O evento contava com a maior estrela do partido Democrata, o ex-presidente Barack Obama.
Ainda assim, o deserto de pessoas é evidência de como Joe não empolga. Escalado para perder a eleição – em um momento que Trump era imbatível – Biden só se tornou viável com a ajuda da peste. A pandemia de coronavírus, associada às derrapadas do presidente na condução da crise, colocaram Biden bem perto da vitória. Pelo menos é o que indica o resultado das eleições até aqui. E Kamala Harris saiu do banco nos minutos finais do segundo tempo para colocar a mão na taça – e o estado de demência de Joe indica que ela poderá se tornar a primeira “presidenta” da história americana em breve.

Não é que Biden seja uma boa opção, ele era simplesmente a mais ponderada – diante do extremista Bernie Sanders por exemplo – além de já ser um velho conhecimento do estamento político (foi o vice de Obama entre 2008 e 2016). Ainda assim, um dos principais fatores que contribuiu para sua iminente vitória é muito simples: Muita gente não gosta de Donald Trump. Muita gente mesmo. O voto em Biden não é uma opção plena. Ele é uma espécie de antídoto contra o “homem laranja mal”. O que não deixa de ser extremamente poderoso e pode levá-lo à vitória. Ainda assim, aparentemente, não era suficiente.

E o motivo por eu acreditar nisso também pode ser exemplificado por uma imagem. A fotografia abaixo não parece, mas é de um comício em tempos de covid-19. Foi capturada horas depois do evento de Biden em Butler, na Pennsylvania – justamente um dos estados onde Biden lidera por uma margem mínima, e decisivos para as eleições. Sobre o palco está o presidente Donald Trump, o candidato que aparentemente será derrotado em breve.

Cenas tão díspares são suficientes para dizer quem deveria ou não ganhar as eleições? Evidentemente não. Da mesma forma que análises passionais também não. Então vamos aos dados.

1) A aprovação do presidente

De acordo com a Rasmussen Reports, um dos institutos mais reputados dos Estados Unidos, Trump chegava na eleição com uma aprovação de 51%. O índice é mais alto desde que o coronavírus desembarcou no país.

Quando comparado com o primeiro mandato, de seu antecessor Barack Obama, que foi reeleito em 2012, a aprovação de Trump é ainda mais surpreendente. Naquele ano, Obama saiu vitorioso das urnas com uma aprovação de 49%, segundo a Rasmussen.

Antes de Obama, Bill Clinton, com 54%; e George W. Bush, com 48%, tiveram suas reeleições garantidas pelo grau de aprovação de seus governos. No sentido oposto, Bush pai fora punido em 1996, quando perdeu a reeleição. Ele tinha 36% de aprovação. A relação é direta.

2) A participação nas primárias

Nas primárias de 2016, Trump era um outsider que disputou com pesos pesados do partido Republicano. Apesar disso, sua votação foi o suficiente para ganhar a nomeação que o levaria à Casa Branca. O gráfico abaixo mostra que naquele ano, os republicanos se apresentaram de forma massiva para escolher seu candidato que disputaria a eleição depois de oito anos de administração Obama. Comparado com os últimos vinte anos, a adesão republicana só foi menor que em 2008, quando o partido lutou para apresentar um candidato capaz de barrar os democratas.

O gráfico mostra que, nas disputas de reeleição, os eleitores do candidato que está no poder tendem a mostrar um desânimo na adesão às primárias. Foi assim com Bush, em 2004, e Barack Obama, em 2012. O gráfico acima parece mostrar que o fenômeno se reproduziu neste ano. Parece. Isso porque precisamos lembrar que, devido a pandemia de coronavírus, só foram realizadas primárias republicanas em 33 dos 50 estados americanos e na capital Washington, D.C. Por tanto houve uma lacuna não preenchida, e poderíamos imaginar uma participação – anormalmente – ativa se elas tivessem sido realizada em todos os Estados. E isso mais uma vez mostra o quanto Trump empolga seus eleitores, ao contrário de Biden.

Analisando apenas os números dos estados participantes, Trump definitivamente caiu no gosto dos eleitores do partido. As pessoas que se dispuseram a sair para participar votaram de forma quase massiva nele. Em números absolutos, ele recebeu 29% mais votos que em 2016. Dos 31,18 milhões de votos republicanos nas primárias daquele ano, 14 milhões foram para Trump. Neste ano, dos 19,2 milhões que votos, 18,1 milhões foram em apoio a um segundo mandato do presidente.

3) Os votos silenciosos

Em 2018, os institutos de pesquisas foram driblados pelos chamados “eleitores envergonhados”. Uma definição injusta e de certa forma arrogante, que sugere que o leitor que tem a opção por um candidato asqueroso ou ruim se vê intimamente constrangido a não declarar o seu voto. No caso brasileiro, o então deputado federal pelo Rio de Janeiro e ex-capitão do Exército era o perfeito candidato de dar vergonha. O tal eleitor envergonhado seria o culpado pela surpresa nas urnas. E era essa a tal maioria silenciosa que Donald Trump diz, com razão, que existe e poderia levá-lo à vitória.

O resultado inesperado – e como os votos são apurados

Ainda assim os resultados das contagens até então apontam que Biden conseguiu várias viradas justamente nos estados chaves, muitas quando a apuração das urnas já estava bem avançada – o que certamente também reflete a votação por cartas, que tem uma tendência a ser dominada por democratas.

Além disso estes são alguns dados que consegui levantar sobre a apuração dos votos:

  • Em quinze Estados e na capital Washington, D.C. – que juntos concentram 43% da população americana –, ninguém apresenta qualquer tipo de documento de identificação na hora de votar. Por sinal, cobrar a identificação do eleitor é ilegal.
  • Em outros catorze Estados, onde estão outros 14% dos eleitores, é necessário apenas um comprovante de endereço para ter acesso ao voto. (Os detalhes sobre cada Estado podem ser vistos aqui)
  • Pode-se dizer que 57% dos eleitores americanos podem ir às urnas sem nenhum necessidade de provar a identidade. Aqueles que, porventura, forem flagrados votando em situação de fraude vão presos. Mas quem vai checar?

Sem um registro central, dados mantidos em bases estanques nos Estados não podem ser comparados. E não são raros os casos de eleitores que votam mais de uma vez, por ter registros em estados diferentes.

Democracia – O Deus que falhou. Hans-Hermann Hoppe

Desde antes da eleição, Donald Trump tem acusado o risco de fraude nos votos pelo correio. A má vontade para com o presidente o fez entrar na cota do mau perdedor que antecipadamente queria manipular o processo. Não é que eu esteja afirmando que ocorreu, mas não é inegável de que não seria difícil fazê-lo, além de que muitos dados apontam para que tenha ocorrido.

O que é quase certo agora é que a campanha de Trump irá judicializar a questão. E as os problemas derivados dos buracos do sistema eleitoral poderão aparecer. E dependendo do tamanho podem até mudar o resultado da eleição.

Por fim, fiquem com esse vídeo do Biden, totalmente cringe, mas divertido:

André Luís Malheiros

Nem de esquerda nem de direita, muito pelo contrário. Estudante de Medicina em UFMG, Libertário, 19 anos.

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