Introdução ao Jiu-Jítsu, segundo Carlos Gracie

Introdução ao Jiu-Jítsu, segundo Carlos Gracie

Livro escrito por Carlos Gracie


No final de 1948, quando Carlos Gracie publicou, pela editora Pongetti, o único livro que escreveu, Introdução ao Jiu-Jítsu, anunciando como o primeiro de uma série, ele, seus filhos, Hélio, e as respectivas mulheres encontravam-se em Fortaleza. A capa do livro mostra uma foto de Carlos tentando passar a guarda de Hélio, ambos de quimono, tirada em 1934. A posição dos irmão na fotografia forma um triângulo perfeito, que mais tarde seria incorporado como uma logomarca da futura Academia Gracie de Jiu-Jítsu.


Na dedicatória, uma demonstração enfática da amizade que unia o autor a Oscar Santa Maria, seu sócio e discípulo espiritual:


“Seria este trabalho demasiado incompleto se não o dedicasse a Oscar Santa Maria, nosso excelente aluno e amigo incondicional de todas as horas. De tal forma ele se integrou nas sutilezas e nos recursos do Jiu-Jítsu que, inspirado pela sua dedicação aos irmãos Gracie, quando tive de enfrentar um dos meu perigosos adversários, chegou a ser o criador de um terrível e inesperado golpe, do qual me prevaleci para, sem transgredir as leis da lealdade desportiva, deixar sem sentido no tablado o meu antagonista.”


O prefácio de livro era de Henrique Ponguetti, dono da editora. No texto, intitulado “Enquanto vocês vestem o quimono”, Pongetti rememora a trajetória de perseverança e bravura de Carlos e seus irmãos Oswaldo, Gastão, George e Hélio, que não somente derrotaram campeões de luta livre, capoeira e boxe (“massas-brutas habituados a desmoralizar o adversário com a simples apresentação corpo semidespido”), como também os próprios mestres japoneses do Jiu-Jítsu, “criados na prática dos seus golpes tão imprevistos, tão felinos, tão anatômicos, tão humanos em seu objetivo de paralisar a ofensa sem ferir o ofensor”.

Carlos e Hélio Gracie, em 1959.



Pongetti descreve ainda os “olhos azuis de poeta”, a calma de jogador de xadrez” e a “máscara de contemplador” de Carlos Gracie:

“Carlos vive em obediência aos ditames da natureza: não bebe, não fuma, segue uma esclarecida norma alimentar”; e ressalta o valor do Jiu-Jítsu não apenas como arma de defesa incomparável, mas também como um instrumento para se obter a saúde física e moral. Como escreve o próprio Carlos Gracie:


“Nunca tivemos em mira acirrar ânimos, provocar rixas, excitar temperamentos e adestrar corpos humanos para finalidades que reduziriam os nossos discípulos a lamentáveis êmulos de animais de briga. (…) Jamais o saneamento mental deixou de constituir escopo relevante em nossa escola. (…) Apesar de todas as vantagens que inegavelmente o Jiu-Jítsu proporciona, lamentavelmente se verifica que, por ignorarem em que consiste verdadeiramente essa arte, os que mais dela necessitam são os que se mostram refratários, tão úteis e necessários a fracos e fortes (…) e, sobretudo, aos de temperamento belicoso, os quais, frequentemente por falta de uma educação conveniente, recorrem a processos intempestivos, perigosos e tantas vezes nocivos.”


O livro de Carlos Gracie foi dividido em cinco capítulos, intitulados: “Conheci-te a ti mesmo”, “Mente sã”, “Corpo são”, “Álcool” e “O fumo”. Sabendo que frustraria o leitor que quisesse buscar no livro apenas informações mais específicas sobre o Jiu-Jítsu, Carlos resolveu dar-lhe uma satisfação, advertindo-o:


“…pretender apenas por meio de leitura conhecer de maneira profunda os segredos dessa milenar arte de defesa e ataque é o mesmo que querer estudar canto por correspondência”.


Aos que lhe cobravam os anunciados novos volumes tempos depois, Carlos respondia que teria que reescrever cada livro todos os anos, já que seus próprios conhecimentos e opiniões evoluíram incessantemente. Seu pensamento era dinâmico, que não cessou de se transformar ao longo das décadas: como em qualquer forma de luta, estagnação é fraqueza; foi o que aconteceu ao Jiu-Jítsu japonês, que ficou paralisado no tempo e acabou erradicado no Japão.

Carlos Gracie, em 1994.



O título do primeiro capítulo, “Conhece-te a ti mesmo”, reflete a importância que Carlos dava à busca do autoconhecimento como um processo de aprendizado em direção ao crescimento e ao amadurecimento. “Vivemos a ver no nosso semelhante a causa de contrariedades , privações e sofrimentos que, a cada passo surgem em nosso caminho”, escreveu ele, pregando que qualquer transformação na sociedade tem que começar pela transformação interior do indivíduo. Em seguida critica severamente a prática de se incutir o medo nas crianças, já que este “traumatismo moral” é o principal motivo de uma vida de fracassos e medo, que:


“forçando-nos a uma fuga, nos leva à derrota, quando uma simples expectativa serena nos conduziria à vitória (…) Quando não existe o medo, a mudança de uma disposição integralmente pacífica para uma atitude de defesa e ataque faz-se sem dificuldade. O medo – que em tantas ocasiões nos põe estarrecidos – mais é do que o estado nascido no momento em que o homem duvida de suas forças, de seu poder. Portando, quanto mais perfeita for a consciência de nossas possibilidades de nossos recursos, mais confiantes enfrentaremos as situações (…) Quando temos confiança em nós mesmos e – sobretudo- quando esse estado foi alcançado depois de comprovarmos nossa experiência, mais facilmente somos senhores de nós mesmos. (…) Com espírito superior e positivo, sem peias convencionais ou recalques deturpantes, a tolerância, a indulgência e a complacência serão as faces do prisma cristalino através do qual o nosso discernimento será cada vez mais esclarecido pela luz da realidade. Dificilmente voltaremos a ficar à mercê de circunstâncias que antes faziam com que perdêssemos o sangue frio, que nos tornavam joguetes de impulsos insensatos, nervosismos infundados, emotividade doentia, angústia torturante e incontinência verbal. Passando a respeitar cada vez mais os outros e a nós mesmos pelo hábito da honesta e justa apreciação, iremos substituindo pela moderação a violência e as atitudes selvagens.


E, como se fizesse uma citação de um provérbio retirado de algum pergaminho oriental milenar, ele sentencia: “Semeia um pensamento e colherás uma ação; semeia uma ação e colherás um hábito; semeia um hábito e colherás um caráter; semeia um caráter e serás senhor do teu próprio destino.”


Filósofo diletante, com leituras profundas de obras de referência tanto do pensamento oriental quanto do ocidental, Carlos também se permite digressões mais abstratas sobre a natureza humana e as razões do mal:


“O ser humano, em vez de ser encarado apenas como um corpo que dispõe de uma alma, de antes, ser considerado uma alma que possui um corpo”; “O mal, pela sua natureza, é sempre de duração efêmera. Potencialmente, todos somos bons. A questão é falar a cada um a linguagem que ele possa entender, é estabelecer as condições propícias para que possa germinar a milagrosa semente guardada em todo coração humano.”


Apesar de admitir a existência da alma, ele faz questão de valorizar os cuidados que se deve ter com o corpo:


Se é certo que as desarmonias de nossos pensamentos e sentimentos podem gerar males físicos, não é menos verdade que os cuidados que tenhamos com o nosso corpo se refletirão não somente neste, mas numa saúde mental que todos carecemos para uma vida harmoniosa, alegre e feliz. (…) em vez de estudarmos as leis que cumpre respeitar para evitar as doenças, preocupemo-nos mais em saber os medicamentos ou processos indicados para rebelar as conseqüências da nossa ignorância ou das nossas infrações conscientes.”

Carlos tentando passar a guarda de Hélio, em 1934.



Na última página, um agradecimento ao irmão Hélio:


“…desejamos manifestar o nosso agradecimentona Hélio Gracie, nosso irmão, que com toda a boa vontade concordou em figurar nas demonstrações fotográficas que hão de ilustrar o nosso trabalho. Havendo ele adquirido a prática em nossa academia – da qual chegou a ser preciso instrutor -, os seus conhecimentos de Jiu-Jítsu atingiram – pelo seu esforço, sua observação e experiência, sua tenacidade e inteligência – um grau de aperfeiçoamento técnico, didático e pedagógico verdadeiramente notável e raro no mundo ocidental. Estes fatores, aliados à sua fibra de lutador, valeram-lhe o título invicto que merecidamente ostenta até hoje…”

Hélio Gracie



Por fim, o conceito de Jiu-Jítsu idealizado por Carlos deveria preparar o aluno enfrentar a vida em todos os seus aspectos, pois ele acreditava que havia uma interligação entre todas as coisas.


Referências bibliográficas:

  • Carlos Gracie, O Criador de uma Dinastia – Reila Gracie, editora Record, 2008.
  • Introdução ao Jiu-Jítsu – Carlos Gracie, editora Pongetti, 1948.

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